Crowdfunding torna-se “chapéu eletrônico” para artistas de rua

No fim de abril, os artistas de rua do Rio de Janeiro fizeram festa para a aprovação do projeto de lei 931/2011 na Câmara Municipal. A proposta autoriza as manifestações culturais em espaços públicos como praças, largos e boulevards sem necessidade de requisição prévia aos órgãos públicos. Tudo ia bem até que o prefeito Eduardo Paes publicou no Diário Oficial o veto ao PL.

A celebração foi adiada, mas não por muito tempo. O prefeito voltou atrás na decisão e pediu que os deputados derrubassem o veto, depois que a classe resolveu se mobilizar para cobrar uma mudança de atitude.

André Garcia Alvez participou ativamente da comoção. Há 20 anos, ele também atende pela alcunha de palhaço Migué Bruguelo e há seis ajuda coordenar o Boa Praça, projeto que realiza uma série de eventos em espaços públicos. Na edição deste ano, os artistas estão promovendo espetáculos, oficinas e seminários na comunidade pacificada do Morro Azul, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Desde 2007, Alvez também faz parte de uma comunidade online chamada Artistaderua.com, que reúne vários desses profissionais que fazem dos espaços públicos o seu palco. O portal é uma iniciativa de Kauê Linden para promover e divulgar o trabalho dos artistas de rua.

A atual equipe inclui, além de Linden, um jornalista, um designer e o fotógrafo Pedro Bittencourt, que falou ao Cultura e Mercado sobre o projeto. Ele conta que tudo começou com o interesse do grupo pelo trabalho dos artistas. Eles saíam às ruas para fotografar e filmar as apresentações públicas. “É uma cultura meio desvalorizada. Em qualquer rua de qualquer cidade você encontra artistas. Nosso objetivo é chamar a atenção para esses talentos e, já que estamos numa era de tecnologia, por que não levá-los da rua para a internet?”, indaga.

Em pouco tempo o portal tornou-se uma plataforma de troca entre os profissionais da rua e também uma vitrine para seu trabalho. “Surgiram propostas para a contratação desses artistas, no Brasil e em outros país da América Latina, como a Colômbia, a Argentina e o Uruguai”, ressalta Bittencourt. Além disso, o site também acabou se tornando um espaço de registro da memória da cultura de rua. “Três artistas já faleceram desde que iniciamos o projeto e até hoje eles recebem declarações do público”, conta.

Com o aumento da demanda, os organizadores do portal resolveram expandir. Atualmente, eles dedicam tempo e raciocínio na meta de transformar o site em uma rede social para os artistas de rua e alcançar uma abrangência nacional. “A intenção é que os próprios artistas possam se cadastrar no site e disponibilizar seu material”, informa o fotógrafo.

Para angariar recursos para a nova empreitada, os organizadores botaram o projeto no site de crowdfuding Movere – agora na reta final de arrecadação. Bittencourt diz acreditar no modelo e afirma já ter incentivado um projeto. Para ele o mais interessante da ferramenta é poder mobilizar muitas pessoas em prol de uma causa.

Passando o chapéu – Vinicius Longo, também conhecido como o palhaço Looooongo, comenta que o Artistasderua.com auxilia na compreensão do próprio artista como um profissional. “Com o site, temos mais uma forma de lidar com a coisa de um jeito mais sério. O público se diverte com artista de rua, mas não sabe que ele tem contas para pagar”, explica.

Longo, que também coordena o Boa Praça, diz que informar os artistas é uma das intenções do projeto que, além das oficinas de palhaço e perna de pau, também oferece seminário sobre gestão cultural, “para que o artista se ajuste a esse novo modelo de economia”, completa.

André Garcia Alvez faz a analogia que resume todas as ideias: “[A plataforma] é uma espécie de chapéu eletrônico que nós passamos, esperando que as pessoas olhem para o nosso trabalho e aceitem colaborar”.

Fonte C&M

Nenhum comentário: